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# Prelúdio(19)

>Ansiedade, impaciência, ausência, constante sentimento de frustração, falsa equivalência entre real e virtual, predominâncias autistas e tele-dependência são algumas manifestações, entre tantas outras, em torno da longa exposição de crianças aos produtos eletrônicos, especialmente os portáteis. E ainda pouco se sabe, em razão do recente desenvolvimento tecnológico e da [não menos tenra] ampla democratização do acesso a smart phones, tablets e televisores de última geração: são necessárias décadas para se atestar os reais malefícios e benefícios de tal exposição e se a balança tenderá muito para qualquer um dos lados. Em que pesem as sensações intuitivas para além do pouco que se tem na atualidade, valer-se da prudência como um par ideal aparenta ser atitude razoável, notadamente em tempos de pedofilia exacerbada, misoginia, homofobia, Baleia Azul e Momo. Estabelecer distâncias entre celulares e filhos, regrar o uso de televisores e dar acesso a brinquedos e situações de divertimento reais estão na pauta do bom senso, sem perder de vista, claro, o fato de que a invasão eletrônica é uma realidade e isso confere ao desafio da educação novas nuances de perdas e ganhos e concessões. Sem a senha do aparelho celular, por
exemplo, meu filho André, de 01 ano e 11 meses, não tardou a descobrir o atalho para acesso à câmera do celular: o dedinho nervoso logo entendeu que deslizar a tela para cima dava-lhe a
oportunidade de adentrar no mundo mágico do registro imagético, da produção de fotografias em escala e do imediatismo digital, tanto que em pouco tempo a minha câmera analógica antiga, guardada quase como um artigo de decoração
na estante, perdeu o posto de preferida em seu julgamento. Apesar dos apelos e reclamações parentais, André dribla e desliza, clicando aos montes antes de perder, pelo menos momentaneamente, a concessão do ato fotográfico. As imagens por ele registradas, entretanto, estranhas na exata medida de
um regime visual diferenciado a partir da baixa estatura de quem olha o mundo com espanto e admiração típicas de um pioneirismo infante, além da pouca coordenação que lhe impede tantas vezes de livrar os dedos da lente da câmera embutida, guardam uma similaridade subjetiva com o desconforto inerente ao ato de educar no campo minado da modernidade de wi-fis,
jogos suicidas, redes sociais e das amizades espectrais de uma matrix virtual. Sem saber, André e suas fotografias já se inserem na sociedade espetacular da geração de arquivos, já produzem
conteúdo "impróprio" e flagrantes de corpos semi-nus, os quais, noutra situação, poderiam inclusive gerar constrangimentos. A inocência dos seus atos, entretanto, é ainda o seu baluarte; até quando?

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