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# Latências(15-17)

>Tenho imagens mentais de uma saudade, nebulosas, as quais chamo “Punctuns Memoriais”. Todos temos; nostálgicos. São as reminiscências de um passado que sobreviveram à batalha entre tempo e memória; é como se, escondidas pela memória numa parede ou chão falso, elas houvessem sido salvas e por isso não levadas pelo tempo como espólios de guerra. Então são assim, prolixas, de cores pouco saturadas e mal definidas, embora insistentes em frequentes aparições no vão escuro das minhas órbitas. São para mim especiais, de alguma maneira rompantes, porquanto são punctuns (apropriando -me, em conceito aproximado, do termo barthiano). Mas são punctuns “invertidos”, uma vez que não são suportáveis, fisicamente falando: são de estado latente, como disse, memoriais. Até por conta disso, do não suporte, sempre busquei à exaustão revivê-las, sensorialmente, em momentos nos quais eu montava uma série de quebra-cabeças a partir de fragmentos de lembranças. Eram buscas cansativas, pouco efetivas, frustrantes; e frustrantes porque, mesmo com todo o esforço, elas nunca deixavam de ser nebulosas, ou apenas frestas de uma realidade passada. Então, diante desse impasse, no afã do reviver, fui impelido aos álbuns de família, relicários de fotografias dos tempos de um “eu” infante, catalogando aquelas imagens que mais se alinhavam ao meu acervo mental, identificando as interseções existentes entre aquelas fotos físicas, palpáveis, e as latências que eu trazia somente comigo. A partir desse exercício de interseção, portanto, me propus a um retorno efetivo aos espaços e ambientes, pequenos e inanimados subconjuntos meus, bem como a pessoas e fantasmas, vivas almas, revelando, de forma sutil e simbólica, o que ainda encontrei de assemelhado em comparação às minhas memorações: o antigo móvel que resiste no mesmo local da residência de infância; uma velha cadeira amarela utilizada para refeições; o pouco que restou entre as ruínas de um parque deteriorado no entorno de uma lagoa; um céu invadido por prédios à beira-mar; um quintal fértil e verde que em décadas tornou-se árido; um busto marcado pela cicatriz de uma cirurgia; o rosto de um pai que eu não via há anos; uma vizinha cujo olhar ainda reflete a inocência de outrora; ou um quadro, hoje danificado, e a sua foto-prova marcada com o xis da escolha: uma proxy da distinção entre dois “eus” temporais. Diante dessas revelações, mesmo delas, esses fiapos que restaram de um passado imagético, há um concluir inquietante de que a minha experiência de reviver é ilusória: tudo muda; eu [mudo], sem fala.

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